O João saiu da casca do ovo onde andava metido. Esse ovo veio directamente do galinheiro, "plantado" no meio de uma bela e frondosa horta. Tudo biológico. Daí que o João tenha dentro dele uma espécie de sangue de clorofila e precisa de hortícolas como de ar para os pulmões para desenvolver a sua a actividade.
O João tem uma relação tão estreita com os legumes que faz questão de os apresentar na carta com tanto protagonismo como a estrela principal. Por exemplo, um Bacalhau a Brás para o João seria: Bacalhau, salsa, cebola e alho à Brás! Um cozido à portuguesa, se o fizesse, seria... nem vou dizer o rol ou escreveria mais dois parágrafos só para o descrever!
Esta abordagem só mostra o extremo respeito com que o João trata todo e qualquer ingrediente que usa numa receita e isso é de chef "Gourmet Rural", a filosofia que já aqui vos "preguei" em que um dos vectores é precisamente o valor que todo e qualquer ingrediente tem no todo de uma receita. O ingrediente pelo ingrediente. Seja ele uma folhinha de baldroega ou uma mega folha de couve tronchuda.
Na prática, pude comprovar isso na degustação que fiz e que me surpreendeu, num crescendo sempre entusiasmante de texturas, cores e ingredientes tão simples mas tão bem confeccionados.
A começar com a folha de couve coração recheada com kimchi (base da alimentação” dos coreanos, trata-se de preparações em que se colocam os vegetais em salmoura durante várias horas e, a seguir, se envolvem com uma pasta feita com farinha de arroz, açúcar e vários temperos) e pimentão, polvilhada com trigo sarraceno para textura.
A veia artística do chef explodiu com uma bolacha de beringela recehada com queijo de Azeitão e sarapintada com uma mouse de pimentão e coentros que identifixam imediatamente nas fotos e facilmente remetem para um quadro surrealista de Kansinsky ou Dali.
No campo das sobremesas a minúcia ainda é maior havendo floreados como uma noz que sendo idêntica a una verdadeira não é mais que um casulo de açúcar para o gelado de noz. Melhor, à escala!
A construção de pêra estava sublinhe mas o menos bem conseguido foram as texturas de figo com requeijão em creme cujo sabor não abonou face ao figo original acabadinho de sair da sua casca.
Por fim, 2 notas para a escanção prestável e simpática que acompanhou toda a refeição, que creio ser tailandesa mas percebe mais de vinhos que de picantes e para a excelência da cutelaria, com estojos feitos em couro para os trazer à mesa, do serviço de louça, dos decanters de vidro soprado dentro de ramos de vinha, das fardas da equipa de sala desenhadas exclusivamente para este projecto.
Enfim, uma atenção ao detalhe que torna esta SÁLA de João Sá um MUSEU de Arte Moderna de João Sá. Por fim, os valores das doses são hilariantes para a mestria e ingredientes que ali estão. Esta prova foi feita há algum tempo, antes da Estrela Michelin, mas à laia de Merlin desconfiava que este chef iria subir na consagração internacional e converter aquilo que são escolhas à carta em menus de degustação. Só podia. O meu conselho? Comam na SÁLA. Nunca na cozinha.
@gulasdosardinha
Gulasdosardinha.blogspot.com
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