Aos taberneiros o que é dos taberneiros, aos tasqueiros, as tascas deste país e aos chefs estrelados, os restaurantes de experiências estratosféricas 1 pululam o Portugal do século XXI.

Chamar taberna a um fine dinning é para mim uma dissensão no meio da gastronomia mas estamos numa gastronomia em plena democracia e cada um insulta quem quer sem ir para a prisão.

À parte dessas miudezas (e da falta de estacionamento), conheci finalmente a colher de pau do Rodrigo Castelo, um chef que gosta da portugalidade, que tem respeito pela confeção e deve ter tido boa nota a Geografia.
Sabe quais são os rios de Portugal, explora-os de forma sustentada e por isso desenvolveu uma carta pejada de Peixes Porreiros para o Palato (também conhecidos como PPPs).

Os tempos da lança em África já passaram. Tempos em que os escalabitanos eram conhecidos pela Taberna do Quinzena. Alvissaras à nova Santarém, da Taberna Ó Balcão, da Taberna Òh! Vargas, do Deselegante, do 2 Petiscos, entre outros novos filhos de taberneiros do Ribatejo!

Mas hoje é a vez do Chef Rodrigo Castelo, o taberneiro que é também conhecido como o terror dos peixes e mariscos de rio.
A GULA de entrada foi uma marrada no estômago. E das boas... O Tártaro de Toiro bravo vinha cremoso, mas sóbrio nos sabores, a revelar a frescura e qualidade da matéria prima. A alga crocante recortada em formato de cabeça de Toiro foi o apontamento da região que mostra que o diabo (da parcimónia) se esconde nos pormenores.

Menção honrosa para a tartelete de algas com truta arco-íris pelo seu caleidoscópio de texturas a extremar entre o cremoso da truta com as ovas de tobigo (peixe voador) e a crocância da massa.

Seguiu-se a GULA da liga profissional: os pratos principais. E neste capítulo estou dividido entre uma equipa de vólei de praia ou uma equipa de futsal. 2 pratos levaram-me à Lua, mas foram cinco, os jogadores que me deram a propulsão para chegar até lá.

A Enguia Fumada, pelo seu sabor característico onde fui buscar alguma afinidade com a enguia japonesa (unagui) e a subtileza e delicadeza da sua ligação com a beringela e a cevada sem haver uma luta de egos na minha boca. Prato digno de um malabarista!

Outro pódio para o Siluro com Açorda de Algas e Berbigão. É um peixe carnívoro que normalmente tem uma carne mais densa e intensa, mas este era também uma carícia no topo da minha língua até ao esófago. O berbigão gordo e sumarento, uma violência de frescura, e as algas, que se colam às minhas preferências por uma ligação primordial ao mar que devo ter sido em reencarnações passadas (vida de peixe, talvez…)

Menção honrosa e honrada para outro peixe carnívoro de tamanho considerável e que invadiu rios e se considera muitas vezes como uma praga que o chefe não se importa nada de controlar de forma virtuosa: Lúcio-Perca cura 3 semanas, Puré Abóbora Fumada e Amêndoas. Ligações curiosas e felizes pelo fumo da abóbora, vincado, e as amêndoas a ombrearem essa intensidade do fumado de forma muito harmoniosa. Uma homilia que Santo António não se cansaria de pregar aos Lúcios e às Percas deste país...